4. ECONOMIA 20.2.13

O COMBO BRASIL
Depois de assumir a Budweiser e o Burger King, o trio da Ambev acerta a compra de mais um cone americano: o ketchup Heinz.
MARCELO SAKATE

Eu no conheci at hoje um grupo para administrar empresas to capaz como o formado, nos ltimos anos, por Jorge Paulo Lemann no Brasil. Ele tem sido incrvel. Assim o megainvestidor Warren Buffett, cone do capitalismo americano e o quarto homem mais rico do mundo, explicou uma das razes pelas quais decidiu entrar no maior negcio da histria no setor de alimentos, anunciado na ltima quinta-feira: a compra do grupo americano Heinz, sinnimo de ketchup no mundo, em parceria com o fundo 3G, dos brasileiros Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, por 28 bilhes de dlares. Os trs vo assumir o comando dos negcios de uma empresa de 144 anos cujos produtos fazem parte da dieta diria dos americanos e cujas vendas tm se expandido para novos mercados, entre eles o Brasil.
     O negcio reafirma a agressividade dos brasileiros em aquisies gigantescas e a sua predileo por empresas de ponta em setores tradicionais, em especial na rea de consumo. O alvo so companhias que detenham marcas lderes, com bom potencial de aumento de rentabilidade e valorizao depois de passarem por um choque de eficincia administrativa. Essa  uma obsesso e a marca registrada de Lemann, Telles e Sicupira, responsveis pela criao da Ambev, em 1999. Anos mais tarde, a fuso com a belga Interbrew e a compra da Anheuser-Busch, dona da Budweiser, deram origem  maior empresa de cerveja do mundo. A administrao dos negcios segue uma cartilha rgida, com foco na eficincia, no controle de custos, na ampliao da produtividade e no estmulo  promoo rpida de seus executivos, baseada em parmetros numricos de resultados alcanados. Esse modelo de gesto, que encantou o tarimbado Buffett, ser aplicado agora na centenria Heinz. Um blogueiro do jornal americano The Wall Street Journal indagou se a Heinz receber o tratamento brasileiro e disse que a Ambev  reconhecida pela eficincia e competitividade implacveis. O tratamento brasileiro foi aplicado na dona da Budweiser, a cerveja mais popular dos EUA. Lemann, Telles e Sicupira no s idealizaram a compra, em 2008, como puseram seus homens de confiana  frente da nova empresa, a AB InBev  o brasileiro Carlos Brito foi nomeado CEO. Dois anos mais tarde, o trio comprou a segunda maior rede americana de hamburguer, o Burger King, por meio do fundo 3G. Bernardo Hees, brasileiro, tornou-se o principal executivo. Nos dois casos, os resultados no tardaram a melhorar e conquistaram o reconhecimento dos analistas americanos e internacionais. As empreitadas bem-sucedidas fizeram tambm prosperar, logicamente, a fortuna dos brasileiros. A participao acionria de Lemann em diversas empresas vale hoje estimados 20 bilhes de dlares (quase o dobro da estrela cadente Eike Batista), tornando-o o 36 homem mais rico do mundo e o primeiro no Brasil.
     O sucesso do grupo remonta aos anos 70, quando Lemann criou o Banco Garantia. Ao lado de Telles e de Sicupiral a primeira aquisio de relevo foi a Lojas Americanas, no incio da dcada de 80. A rede varejista se transformou no gigante B2W, dono de outras empresas, como Submarino e Shoptime. O grande passo foi dado com a compra da Brahma, em 1989, ponto de partida para a criao da maior cervejaria do mundo. Eles concentram suas atenes em empresas do setor de consumo, com grande fluxo de caixa, e em atividades nas quais a interferncia do governo tende a ser menor. E no se envolvem em reas como infraestrutura ou petrleo, por exemplo. Similarmente a Buffett, preferem negcios tradicionais, da velha economia, a lanar-se em empreendimentos do mais arriscado e voltil novo mundo da tecnologia.
     A relao de Lemann com Buffett comeou no fim dos anos 90, quando eles passaram a se encontrar regularmente nas reunies do conselho da Guillette do qual faziam parte. Mesmo depois que deixaram o cargo, continuaram a se falar. Foi durante um voo no incio de dezembro passado que o brasileiro contou a Buffett sobre o negcio. A Heinz era um elefante perfeito para ser caado, usando a metfora preferida do bilionrio americano para se referir a grandes empresas que representam uma tima oportunidade de investimento.
     O avano das companhias brasileiras no mercado americano  e no exterior, de modo geral  foi um movimento intensificado com a crise nos pases desenvolvidos. A capacidade de gesto e de adaptao decorre em parte do passado de crise da economia brasileira.  uma vantagem competitiva aprendida  fora nos anos de inflao, planos econmicos e mudanas sbitas nas regras. Quem sobreviveu se fortaleceu. Um exemplo  a construtora Odebrecht, chamada, em 2006, para assumir as obras de expanso do aeroporto internacional de Miami.  fundamental tornar-se competitivo respeitando a maneira de fazer negcios do mercado, diz Gilberto Neves, presidente da Odebrecht nos EUA. O timo relacionamento que temos com as empreiteiras americanas nos permite oferecer os melhores preos quando disputamos licitaes.
     Presente nos EUA desde 1999, a siderrgica Gerdau  atualmente a segunda maior produtora de aos longos do mercado americano, com vinte usinas em funcionamento. Disse a VEJA Andr Gerdau Johannpeter, presidente da empresa: Uma usina tem o melhor processo de fuso do ao. Outra  mais eficiente na laminao do produto. Uma terceira tem o melhor gerenciamento no transporte. Com a internacionalizao, fica mais fcil consolidar o conhecimento e compartilhar as melhores prticas. Outro grande investidor nacional a conquistar terreno em solo americano foi o frigorfico JBS, que adquiriu marcas tradicionais como Swift e Pilgrims.
     A internacionalizao traz outros ganhos, como o acesso a novos conhecimentos e tecnologia, alm de diversificar as fontes de receita. Pode representar ainda uma estratgia eficaz de reteno de executivos. Somos uma das cinco maiores empresas de consumo do mundo e a maior de bebidas. A escala nos permite atrair e manter os profissionais mais talentosos, afirma Claudio Garcia, vice-presidente de pessoas da AB InBev. A julgar pelo apetite de Lemann, Telles e Sicupira, no faltaro oportunidades para expatriar executivos brasileiros nos prximos anos. 

BURGER KING
Faturamento 2,3 bilhes de dlares (2011)
34.000 funcionrios
4 bilhes de refeies servidas ao ano.

BUDWEISER
Faturamento 39 bilhes de dlares (AB InBev, dona da Budweiser, em 2011)
116.000 funcionrios
35,3 bilhes de litros de cerveja vendidos ao ano.

HEINZ
Faturamento 11,6 bilhes de dlares (2012)
32.000 funcionrios
650 milhes de frascos de ketchup vendidos ao ano

UMA INESPERADA EXPANSO
Empresas de capital brasileiro so lderes em alguns dos mais tradicionais setores da economia americana
HEINZ  Alimentos. Comprada pelo fundo 3G, a Heinz  uma referncia pelo ketchup.
BURGER KING - Fast-food. Segunda maior rede de hambrgueres dos EUA,  administrada pelo fundo 3G desde 2010.
BUDWEISER  Cervejas e refrigerantes. A InBev, grupo belgo-brasileiro, comprou a dona da Budweiser e detm 50% do mercado americano.
SWIFT PILGRIMS  Carnes. O JBS comprou as americanas Swift e Pilgrims e  lder em carne bovina, vice-lder em frango e o terceiro em sunos.
KEYSTONE FOODS  Carnes. A Marfrig  dona da Keystone Foods, a empresa de carnes que abastece o McDonalds e outras grandes redes americanas.
GERDAU  Siderurgia.  a maior produtora de aos longos nos EUA. Tem 20 usinas e doze unidades de transformao.
BRASKEM  Petroqumica. Com a compra de unidades da Sunoco e da Dow, lidera a produo de polipropileno (resina plstica com mltiplas aplicaes).
ECO-ENERGY  Combustveis. A Copersucar adquiriu em novembro a Eco-Energy, a terceira maior produtora de etanol nos EUA.
ODEBRECHT  Construo civil. Uma das principais construtoras da Flrida, executou a ampliao do aeroporto de Miami.

COM REPORTAGEM DE ANA LUIZA DALTRO


